Pensando na Morte da Bezerra: a origem que ninguém te contou

Sabe aquela tarde quente de terça-feira, o barulho chato do ventilador de teto da sala de aula batendo e o cheiro de giz molhado no apagador? Você tava lá, com o cotovelo na mesa e o queixo na mão, olhando fixo pra um risco na madeira da carteira. A voz da professora virava um zumbido de fundo até que, do nada, vinha o estalo: “Ô fulano, tá aí pensando na morte da bezerra de novo?”. O susto era certo e a vergonha diante da turma também. Era o jeito clássico de dizer que você tinha saído de órbita e foi passear em algum lugar bem longe dali.

A expressão pensando na morte da bezerra é um ditado popular usado para descrever alguém que está distraído, pensativo ou alheio à realidade, geralmente olhando fixamente para o vazio. A explicação mais aceita para sua origem vem de uma tradição hebraica ligada a sacrifícios de animais, onde a tristeza pela morte de um bezerro teria gerado o termo. Hoje, no Brasil, a gíria perdeu o tom trágico e virou sinônimo de estar “no mundo da lua” ou em estado de profunda distração.

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Afinal, o que significa esse estado de espírito?

Estar pensando na morte da bezerra é o ápice da desconexão. Não é que você tá comendo o pão que o diabo amassou; você só não tá ali. Na nossa infância e juventude, essa era a frase de ouro das mães e tias quando a gente demorava pra responder um chamado ou ficava hipnotizado pela TV desligada. Era o diagnóstico imediato pra quem tava “voando”.

No cotidiano antigo, essa gíria era o terror de quem tinha dificuldade de concentração. Se você ficasse um minuto a mais curtindo o silêncio, pronto, já tinha alguém pra te acusar de estar sofrendo pelo tal animal. Mas a verdade é que essa expressão carrega um peso que a gente nem imaginava quando era moleque. Ela define aquele momento em que a mente viaja tanto que o corpo vira só um móvel na sala.

Mas de onde veio essa bezerra?

A história por trás disso é bem mais séria do que a zoeira da quinta série. A versão mais forte entre os historiadores e etimologistas remete aos sacrifícios bíblicos do Antigo Testamento. Diz a lenda que um bezerro foi sacrificado e o seu dono, em vez de seguir com o ritual, ficou parado, em luto, contemplando o animal morto por muito tempo, chorando pelo leite derramado.

Outra vertente, menos religiosa e mais folclórica, fala de um rei que tinha uma bezerra de estimação e, quando ela morreu, ele entrou em uma melancolia tão profunda que o reino todo ficou parado, observando o rei que só conseguia ficar… pensando na morte da bezerra. Com o passar dos séculos, o luto real ou religioso foi se transformando em deboche popular. Deixou de ser uma dor profunda pra virar aquela viajada na maionese que todo mundo faz de vez em quando.

Existem ainda variações que ligam o ditado à história de Absalão, filho do Rei Davi, mas o fato é que o ditado “pensando na morte da bezerra” atravessou o oceano com os portugueses e fincou o pé no Brasil, sobrevivendo a todas as gerações.

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Pelo Brasil: as variações da distração

O brasileiro é criativo pra falar que alguém tá desligado. Dependendo de onde você mora, talvez não tenha ouvido tanto sobre a bezerra, mas certamente conhece os “primos” desse ditado. No Nordeste, é comum ouvir que a pessoa está “na baixa da égua” (embora esse tenha um sentido mais de distância) ou simplesmente “avoado”. No Sul e Sudeste, o “mundo da lua” disputa o topo do ranking com o ditado da bezerra.

Tem quem diga que está “procurando chifre em cabeça de cavalo” quando a distração vira preocupação, mas o foco no vazio, aquele olhar de peixe morto, é exclusividade da nossa bezerra nacional. É interessante ver a nostalgia dessas gírias se conecta; muitas vezes, quem pensa na morte da bezerra acaba indo parar onde Judas perdeu as botas ou pode ver a vaca ir para o brejo.

E a sua bezerra?

A gente cresce, a vida fica corrida, mas vira e mexe a gente se pega ali, estagnado, olhando pro monitor do PC sem ler nada, voltando direto praquela sala de aula de 1994. Estar pensando na morte da bezerra é um estado de transe que só quem é raiz entende.

Qual era a pessoa da sua família que mais usava essa frase pra te dar um “choque de realidade”? E você, costuma ser flagrado pensando na morte da bezerra por aí ou é você quem dá a bronca agora?

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