Sabe aquele domingo em que a família se enfiava no carro para visitar um parente num sítio desconhecido, lá onde Judas perdeu as botas? Seu pai brigando com o mapa de papel no volante e a estrada de terra que não acabava nunca. Sem GPS para salvar a pátria, a única certeza era que o destino ficava para lá do fim do mundo.
Em resumo, a expressão “onde Judas perdeu as botas” designa um lugar extremamente distante e de difícil acesso. Segundo a lenda, o termo surgiu porque Judas teria escondido as 30 moedas da sua traição dentro de seus calçados e os perdido em um local remoto antes de morrer.
Na era antes da internet, ouvir essa frase de um tio ou da mãe era o aviso oficial de que o pneu ia furar ou que a viagem ia demorar horas. Era a desculpa perfeita para quem estava com preguiça de sair de casa e ir para aquele lugar onde o rádio do carro perde o sinal de vez, a estrada de asfalto vira lenda e até o cachorro de rua desiste de latir.
O que significa ir para onde Judas perdeu as botas?
Sem enrolação: onde Judas perdeu as botas significa um lugar estupidamente longe. É aquela região isolada, de difícil acesso, onde a civilização ainda não chegou direito e a chance é alta que a vaca vá pro brejo.
Diferente de quem dominou a arte de sair à francesa e fugiu do compromisso, quem topava ir num lugar desses já ia preparado com lanche no isopor. Se o endereço não tem CEP ou precisa de três pontos de referência esquisitos pra achar o portão, ele é longe o suficiente pra merecer o ditado. É o fim do mundo geográfico.
As 30 moedas de prata e a origem da lenda
A história por trás da gíria onde Judas perdeu as botas não tem a ver com trânsito, e sim com traição e dinheiro. A lenda popular, que chegou ao Brasil vinda da Europa na época em que se amarrava cachorro com linguiça, cruzando o relato bíblico com a imaginação do povo.
A história conta que, após trair Jesus por 30 moedas de prata, Judas Iscariotes se arrependeu. Mas, antes de seu fim trágico, ele precisava esconder o dinheiro sujo. A lenda diz que ele enfiou a grana nas próprias botas, longe de qualquer mão de vaca.
O problema começou depois da sua morte: os calçados sumiram. Soldados e caçadores de tesouro teriam passado meses procurando a fortuna nos cantos mais remotos, isolados e inalcançáveis possíveis, e nada. Nascia aí a expressão. Um lugar tão longe e de difícil acesso que só podia ser o esconderijo daquelas botas.
Como o brasileiro reclama da distância pelo país
O brasileiro é mestre em batizar lugar fora de mão. Se o sujeito não quer ir pra onde Judas perdeu as botas, no Nordeste ele pode reclamar que a festa fica lá em “Caixa-Prego”. Na Bahia, a galera que pega o ônibus lotado sabe que o ponto final é na “Baixa da Égua”.
No Sudeste, a variação mais famosa é o “Cafundó do Judas” ou o clássico “lá onde o vento faz a curva” (e aqui no blog a gente tem um dicionário inteiro dessas expressões regionais antigas pra você relembrar). No fim das contas, a sensação de poeira na cara e tanque na reserva é a mesma.
O fim da jornada
Hoje a gente digita o nome no aplicativo, ele calcula a rota, acha o radar e avisa até o buraco na via. Acabou a aventura de parar no posto de beira de estrada pra pedir informação pro frentista. Se quiser saber mais sobre as expressões idiomáticas do nosso passado e ainda testar seu conhecimentos em desafios visuais, dá um pulo na nossa comunidade do Facebook e leia os relatos lá.
E aí na sua casa, quem era a pessoa que mais falava isso pra você quando não queria dar carona de jeito nenhum? Você ainda tenta escapar dos programas que são muito longe de casa ou já aceitou que, às vezes, tem que ir pra onde Judas perdeu as botas?
