Você lembra do desconforto da expressão segurando vela? Sábado à noite, garagem da casa de algum amigo ou aquele “fervão” de aniversário com bolo de abacaxi. O som era um 3 em 1 tocando alguma balada lenta do Roxette ou Double You. Os casais começavam a se ajeitar nos cantos mais escuros, o cheiro de perfume barato e laquê tomava conta do ar, e você lá. No meio da sala, ou sentado num banco de madeira, sem ter com quem trocar uma ideia, apenas assistindo ao romance alheio.
A engraçada imagem em nosso Facebook relembra daquela época, em que não tinha celular pra gente fingir que estava ocupado. Se você estivesse sobrando, a única opção era olhar pras paredes, contar as bexigas que ainda não tinham estourado ou encarar o chão. Ou seja, ficar segurando vela. Era uma função ingrata que quase todo mundo da Geração 35+ já cumpriu, seja por falta de opção ou pra “fazer o social” pra uma amiga que não podia sair sozinha com o namorado.
O que significa ser o “vela” da turma?
A tradução direta da expressão segurando vela é bem simples: é aquela pessoa que sobra. É o terceiro elemento que acompanha um casal em um programa onde, claramente, dois é bom e três é demais. O “vela” é aquele que ouve as DRs, que vê os beijos apaixonados no banco de trás do ônibus e que fica com a função de segurar a pipoca no cinema enquanto o casal decide se vai ou não vai.
No dicionário de expressões da nossa geração, ser o vela era quase um rito de passagem. Significava que você era o amigo fiel, aquele que servia de “escudo” pros pais da menina acharem que era um passeio de amigos, quando na verdade você era apenas o figurante de um filme de romance que não era o seu.
De onde veio esse termo tão esquisito?
Muita gente acha que o termo “segurando vela” é brasileiro, mas a origem é bem mais antiga e vem de uma época em que a iluminação não era apertando um interruptor. A teoria mais aceita vem da França, com a expressão “tenir la chandelle”.
Antigamente, em séculos passados, não existia o conceito de privacidade que temos hoje. Quando os mestres ou pessoas da alta nobreza queriam ter seus momentos de intimidade à noite, eles precisavam de luz. Como não dava pra namorar e segurar um candelabro pesado ao mesmo tempo, sobrava pros criados ou aprendizes a função de ficar ali, de pé, segurando a vela para que o casal pudesse se enxergar.
O detalhe mais “sujo” dessa história é que, para garantir a discrição, o criado deveria ficar de costas, apenas iluminando o ambiente, sem olhar para o que estava acontecendo. Ou seja, ele estava fisicamente presente, ouvindo tudo, mas sendo totalmente ignorado como pessoa. É exatamente a sensação de quem sobra no rolê hoje em dia: você tá lá, mas ninguém te nota.
Existe também uma versão que remete aos casamentos antigos, onde se acreditava que a luz de uma vela espantaria maus espíritos durante a noite de núpcias, e alguém (geralmente uma dama de companhia) precisava garantir que a chama não apagasse. Seja como for, a função sempre foi a mesma: estar presente em um momento íntimo sem fazer parte dele.
Jeitos diferentes de sobrar pelo Brasil
O Brasil é gigante e a expressão segurando vela ganhou variações dependendo de onde você cresceu. No Sul, é comum ouvir que a pessoa está “fazendo número”. No Nordeste, tem quem diga que o sujeito está “fazendo bico”. Em outros lugares, o termo “sobrando na curva” também tinha o mesmo peso de quem está deslocado.
Mas, independente do nome, o sentimento era universal. Quem viveu os anos 80 e 90 lembra que ser o vela muitas vezes envolvia caminhar três quadras atrás do casal, ou ficar sentado no muro de casa esperando a amiga terminar a despedida no portão que durava duas horas. A gente via o tempo passar, o pernilongo picar e a vela, simbolicamente, queimar até o fim.
E na sua época de solteiro?
A gente sabe que essa lembrança traz um misto de risada e vergonha alheia. Hoje em dia, com o celular na mão, ninguém mais fica segurando vela de verdade — a gente só mergulha nas redes sociais e ignora o mundo. Mas o “vela raiz” tinha que ter paciência de monge.
E pra você? Quem era a pessoa que mais te fazia segurar vela na adolescência? Ou você era aquele amigo que sempre precisava levar um “vela” junto pra enganar seus pais?
